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domingo, 29 de março de 2009

O Admirador – Final: O Enterro

Maristela Scheuer Deves

Chegou ao cemitério às 17h em ponto, e estranhou que não houvesse ninguém lá para o seu enterro. Mesmo assim, caminhou entre os túmulos – que mais pareciam um labirinto – tentando decidir o que fazer. Que local teria ele escolhido para sua cova, perguntou-se, relanceando um olhar ao redor e ainda estranhando a ausência de parentes e amigos. "Apareça", chamou em voz alta, "eu sei que você está aí".

Com um sorriso maquiavélico e um olhar zombeteiro, ele finalmente surgiu no corredor entre as sepulturas, alguns metros adiante. "Bem-vinda, que bom que você veio ao nosso encontro", saudou, num arremedo de cumprimento. Sem responder, ela ficou a olhá-lo, observando cada detalhe. Assim, sem o uniforme, até que ele não era feio, forçou-se a admitir, apesar da crescente aversão. "Então, era você mesmo", disse simplesmente, sem nenhuma emoção.

Ele sorriu novamente. "Demorou a descobrir, heim? Mas, também, quem sou eu para você reparar em mim – seja como homem ou como suspeito? Simplesmente o novo porteiro, aquele que lhe abria a porta do prédio, entregava a correspondência, às vezes ajudava com as compras... Achei que as coisas iam mudar com as flores, mas você continuou a sair com aquele seu namoradinho sem sal! E eu tendo que avisar-lhe toda vez que ele chegava, tendo de ser educado com ele..."

Ela tentou falar, replicar sobre o absurdo disso tudo, mas ele ergueu a mão, interrompendo-a. "Eu jurei que você seria minha, e que, se não fosse, não seria de mais ninguém." Desnorteada, sentindo-se impotente perante a loucura do que ele dizia, sentiu toda a raiva e a coragem anterior abandonando-a. Enquanto lágrimas começavam a vir-lhe aos olhos, deu as costas ao seu tétrico admirador e começou a se afastar em direção à saída do cemitério. Queria ir embora, e só. E foi seu erro.

Mal sentiu quando algo pesado caiu com força sobre sua cabeça, enquanto ouvia-o dizer: "Você acha que eu seria tolo de marcar com você no horário exato? Alterei a hora no jornal que deixei sob a sua porta, os outros só chegam para o enterro daqui a uma meia hora..." Depois, não ouviu nem sentiu mais nada. Se não estivesse desacordada e sedada dentro do caixão que desceu à sepultura às 18h, veria o quanto era querida: enquanto o padre rezava e dizia palavras de consolo, amigos, parentes, colegas de trabalho, namorado, ex-namorado, vizinhos e até mesmo o porteiro do prédio choravam a sua morte.

sábado, 28 de março de 2009

O Admirador - Parte 4: Rostos

(Maristela Scheuer Deves)

Acordou do desmaio deitada na cama e tendo ao lado uma aflita camareira, que não sabia o que fazer com aquela hóspede que desmaiava ao receber uma simples rosa. Por mais que perguntasse, não conseguiu descobrir quem deixara a flor na portaria – mesmo resultado dos inquéritos que fizera quando da entrega dos buquês no seu apartamento. A cabeça ainda girando, questionou-se se valia a pena continuar no hotel, uma vez que o esconderijo fôra descoberto tão facilmente.

Decidida, apanhou a mochila e desceu para fechar a conta. Pensou em almoçar – já era quase meio-dia, o tempo se escoava rapidamente –, mas abandonou a idéia. Sabia que, naquela aflição, nada pararia no seu estômago. Rumou de volta para casa, e, no caminho, jurou que seus últimos resquícios de sanidade tinham se esvaído: o porteiro do hotel, o guarda parado na esquina, o senhor de idade sentado no banco da praça, o taxista, todos pareciam olhá-la de maneira estranha, furtiva, suspeita.

Não foi diferente ao chegar no prédio no qual morava: o homem que saía rapidamente e no qual esbarrou, o zelador, a meia dúzia de vizinhos pelos quais passou no corredor – seria um deles?, perguntava-se ao olhar para cada rosto. Trancou a porta do apê e depois a porta do quarto. Jogou-se na cama, em lágrimas. Não agüentava mais. Acabou adormecendo, e nos sonhos – ou alucinações? – os rostos mais uma vez se sucediam, conhecidos ou desconhecidos, todos ameaçadores.

Acordou com o toque insistente da campainha, e assustou-se ao olhar no relógio: já passava das 16h! Ainda semi-adormecida, olhou pelo olho mágico, mas não havia ninguém no corredor. A dormência evaporou-se como num passe de mágica, os últimos acontecimentos voltando como uma torrente. De repente, um dos rostos do sonho fixou-se na sua mente. Claro!, pensou, começando a tremer mais uma vez. Como não pensara nisso antes? Era óbvio, só podia ser...

Estranhamente reconfortada agora que sabia quem era seu inimigo – sim, tinha certeza, não havia outra alternativa –, sentiu-se calma pela primeira vez em meses. Foi ao banheiro, lavou o rosto, voltou ao quarto e arrumou-se cuidadosamente. Então, saiu rumo ao Cemitério Municipal. O horário do enterro estava chegando, e ela estava decidida a não perder a festa de jeito nenhum.

(amanhã, o último capítulo desta história)

quarta-feira, 25 de março de 2009

O Admirador - Parte 3: Suspeitos

(Maristela Scheuer Deves)

Sim, decidiu ela. Mesmo com medo, iria ao enterro para ver quem estava lá e como o autor dessa brincadeira mórbida iria se sair sem o seu corpo para sepultar. Acabaria, de uma vez por todas, com o plano dele. "Aliás, já está na hora de descobrir quem ele é", murmurou para si mesma, relembrando, com uma seqüência de calafrios, o desenrolar daquela história.

Desistira de tentar avisar aos pais e aos amigos que estava bem. O melhor a fazer, até a hora de ir ao cemitério, era sumir para que ele não a encontrasse. Só assim estaria segura de que não haveria, mesmo, um cadáver para ser colocado no caixão. Tentando controlar-se, correu ao quarto e pegou uma mochila. Olhou para o celular; melhor não levá-lo, decidiu. Depois de tantos dias trancada em casa, sentiu-se estranha ao pegar o elevador. Notou que o porteiro a olhou espantado, sem responder ao seu cumprimento. "Vai ver achou mesmo que eu estava morta", pensou, desanimada.

Fez sinal a um táxi que passava e deu o endereço de um hotel do outro lado da cidade. Lá, trancou-se no quarto, sentindo-se finalmente segura. Abriu a agenda na intenção de listar possíveis suspeitos, mas, a princípio, não conseguia imaginar ninguém que lhe quisesse fazer mal. A não ser... Não, ele não seria capaz disso! Ou, pelo menos, não teria criatividade para tanto. A idéia, porém, insistia em martelar-lhe a mente: o ex-namorado, com quem terminara após descobrir uma traição e que não aceitara a separação na época. Lembrou-se como ele costumava ligar-lhe sempre, insistentemente, até que decidira trocar o número do telefone...

Mas, não, a solução lhe parecia fácil demais. Tinha de ser outra pessoa. Mas quem? Começou a repassar na mente todos os colegas e ex-colegas de trabalho, os vizinhos do prédio, mesmo os amigos da época de faculdade. Ninguém parecia se encaixar no perfil. Ainda olhava para a página em branco da agenda quando sobressaltou-se com uma batida na porta.

"Encomenda para a senhorita", anunciou a voz que reconheceu como a do rapaz que carregara a sua mochila até o quarto. O já costumeiro arrepio voltou a percorrer-lhe o corpo – afinal, não pedira nada, e ninguém sabia que estava ali. A sensação mostrou-se correta quando abriu a porta e recebeu a rosa vermelha. "Só faltam seis horas. Não falte ao nosso encontro", dizia o cartão.

(continua amanhã)

terça-feira, 24 de março de 2009

O Admirador - Parte 2: Pesadelo?

(Maristela Scheuer Deves)

A noite fora horrível, com pesadelos nos quais poemas de amor se transformavam em tétricas canções de despedida junto a túmulos recém-cobertos. E ela as ouvia de dentro do túmulo, debaixo da terra. Acordou quando tentava gritar que estava viva, e a primeira coisa que percebeu foi o insistente odor das flores – o que só contribuiu para aumentar a sensação de irrealidade. "Estou ficando louca", repetiu para si mesma. Forçou-se a sair da cama e preparou um café, embora não tivesse apetite. Decididamente, não iria trabalhar nesse dia. Há quase uma semana não o fazia, apavorada demais desde que as coroas fúnebres passaram a persegui-la também na empresa.

Terminava de comer seus ovos mexidos quando percebeu o jornal do dia enfiado sob a porta. "Estranho", pensou, lembrando que normalmente precisava buscá-lo na caixa de correspondência do andar térreo. Querendo distrair-se, pegou o jornal e começou a folheá-lo, detendo-se aqui e ali para ler algo que parecia mais interessante. Sem conseguir concentrar-se na leitura, já ia fechar a publicação quando seus olhos bateram num anúncio, colorido, ao pé de uma página: a comunicação de seu próprio falecimento.

O jornal só não caiu de suas mãos porque ela ficou congelada. Olhando para para sua foto (tirada na noite da formatura, recordou), questionou-se se não estava, ainda, sonhando. Mas o papel áspero em suas mãos não deixava dúvidas: ele estava ali, e, em destaque, o anúncio fúnebre em sua homenagem, assinado pelos "amigos que nunca a esquecerão". Rindo histericamente, pensou nos telefones – se eles não estivessem desligados, a essa altura deveriam estar tocando sem parar, em busca da confirmação da notícia.

A mãe! A sua mãe, meu Deus!, deveria estar enlouquecida a sua procura. Correu ao telefone e recolocou-o no gancho, na intenção de discar para a casa dos pais. Antes que o fizesse, no entanto, ele tocou. Do outro lado, em vez de algum conhecido aflito por saber se estava bem, uma voz rouca, desconhecida e algo risonha: "O enterro será às 17h." O fone foi parar no chão, com um estrondo, enquanto a cabeça começava a rodar. A página do jornal, aberta sobre a mesa, confirmava. Seria no Cemitério Municipal.

Deixando-se cair ela mesma numa cadeira, ficou mais de meia hora sem conseguir pensar em nada. Por fim, forçou-se a sair daquela letargia e olhou no relógio: 9h. Faltavam oito horas, então, para o seu próprio sepultamento. Deveria ir ao cemitério? E o que fazer até lá?
(continua amanhã...)

segunda-feira, 23 de março de 2009

O Admirador - Parte 1: As Coroas

(Maristela Scheuer Deves)

Os relâmpagos rasgavam o céu e iluminavam o quarto, apesar das janelas e dos olhos fechados. Os trovões, ecoando ao longe, pareciam chegar cada vez mais perto, enquanto a chuva desabava com força sobre o telhado. Encolhida sob as cobertas, pensou em quando costumava, em noites assim, arrastar o colchão para o quarto dos pais. O pai fazia troça, mas ela se sentia protegida. Agora os pais estavam a centenas de quilômetros de distância, e ela, sozinha no apartamento enorme. E com medo, mais uma vez.

O estrondo de um novo trovão sobressaltou-a e a fez pensar nos ramos bentos que a mãe queimava para acalmar tempestades. Chegou a afastar as cobertas para o lado na intenção de procurar aquele maço de galhos de oliveira, mas, suspirando, abandonou a idéia. Seu medo atual, ela se forçou a admitir, não era causado pelas forças da natureza. Na semi-obscuridade do quarto, lançou um olhar para o fone fora do gancho. O celular, ao lado, também estava desligado havia dias.Se a mãe tentara contatá-la, devia estar preocupada, pensou, fazendo uma anotação mental para ligar-lhe no dia seguinte.

Diria que os telefones estavam com defeito, mas era mentira. A verdade, nua e crua, é que seus nervos não agüentavam mais.Três meses! Ou seriam quatro, já? Não podia entender, agora, como de início achara graça naquilo. Repassou em pensamento a primeira vez que a campainha tocara, o entregador com uma braçada de rosas vermelhas. No cartão, no lugar da esperada assinatura do namorado, apenas um "você ainda vai ser minha" rabiscado em letras maiúsculas. Divertida com a idéia de um admirador secreto, colocara as flores em um vaso, na sala.

Ainda podia sentir o cheiro delas. Não apenas daquelas rosas, mas de todas as outras que vieram depois. E, também, das coroas – as coroas fúnebres que passaram a chegar ao mesmo tempo em que as ligações em que ninguém dizia nada. Arrepiou-se só de lembrar o telefone tocando de madrugada, e ficando mudo quando atendia. Quando aquelas macabras coroas começaram a ser entregues, uma após a outra, dia após dia, com o seu nome gravado, achou que iria enlouquecer. Quem, em nome de Deus, estaria fazendo aquilo? E por quê?

Em princípio tentara considerar tudo como uma brincadeira de mau gosto, mas não dava mais. Contara 47 coroas entregues em seu apartamento nos últimos meses. E, faziam duas semanas, elas passaram a ser entregues também no seu local de trabalho.
(continua amanhã...)

segunda-feira, 16 de março de 2009

O Bicho Invisível

Maristela Scheuer Deves

Nem lembro mais a última vez em que fui à praia. Não que eu não goste de mar, sol e calor. É que não quero mostrar meu corpo. Não quero que vejam as cicatrizes nos meus braços, nas minhas pernas, no meu corpo todo. Por isso, sempre uso mangas longas e calças compridas, mesmo no verão. Mas se você pensa que é a vergonha que me impele a esconder a marcas, está enganado. São as lembranças. Se alguém perguntar de onde elas vêm, eu vou ser obrigada a recordar...

Eu era criança, lá pelos meus onze anos. Adorava correr, brincar com minhas amigas. E, principalmente, pregar peças em uma delas, Clarice, a menorzinha. Com apenas oito anos, ela era a vítima perfeita para nossas brincadeiras nem sempre tão inocentes.

Naquela tarde, havíamos ido até uma propriedade dos pais de Eva, a garota que morava em frente à minha casa. Era a “morada velha”, como Seu Balduíno, pai de Eva, chamava o antigo sítio onde a família habitara até minha amiga ter dois ou três anos. O lugar ficava a uns cinco ou seis quilômetros de nossas casas, por isso fomos todas – eu, Eva e Clarice – empoleiradas na traseira da caminhoneta do Seu Balduíno (naquele tempo, isso ainda não era proibido).

Chegando ao sítio, brincamos algum tempo de esconde-esconde, mas logo a brincadeira foi perdendo a graça. Até que chegou a hora em que não conseguíamos encontrar Eva. Era a vez de Clarice procurar, por isso em princípio achei divertido, mas quando já se tinham passado mais de vinte minutos, dez dos quais comigo ajudando na busca, comecei a ficar irritada, e até mesmo um pouco preocupada.

– Apareça, Eva. Você ganhou – chamei, pensando onde afinal ela se escondera. Claro, ela conhecia aquele lugar como a palma da mão, e nós não, era lógico que ela encontraria os melhores esconderijos.

Mesmo com nossa rendição, entretanto, ela não apareceu, e retomamos as buscas. Outros dez minutos e eu a localizei num velho galpão, deitada sobre um monte de palha de milho. Parecia desacordada, e na hora fiquei em dúvida se era verdade ou fingimento. Clarice, que entrara no galpão logo atrás de mim, deu um gritinho ao ver Eva caída ali e correu até ela.

– Acorda, Eva, acorda – disse, quase aos soluços, chacoalhando nossa amiga pelos ombros.
Aos poucos, Eva foi abrindo os olhos. Girou a cabeça, como que para ver onde estava.

– O que aconteceu? Você está bem? – interpelou a pequena, antes que ela pudesse falar qualquer coisa.

Eva disse-nos eu não sabia como fora parar ali, e que não ouvira nossos gritos.

– Só me lembro que eu estava procurando um lugar para me esconder, daí senti uma coisa me puxando para trás. Olhei, e não vi nada... Mas ainda estava sendo puxada, como se fosse por um bicho invisível. Desmaiei, e só acordei agora.

Minha amiga contou sua história com tanta convicção que até mesmo eu pensei que podia ser verdade. Entreolhamo-nos as três e, sem mais uma palavra, corremos para fora dali, para bem longe do Bicho Invisível. Quando passávamos pela porta, no entanto, Eva piscou para mim, e entendi: como eu suspeitara a princípio, aquilo era só mais um plano para amedrontar a Clarice. Sorri comigo mesma, impressionada com o talento de atriz da minha amiga, e resolvi incrementar a história assim que surgisse uma oportunidade.

Fomos brincar no outro lado do pátio, bem longe do galpão – já que agora Clarice não queria nem chegar perto dele. A cada pouco tempo, eu ou a Eva dávamos um jeito de desaparecer e de sermos encontradas “desmaiadas”. Sempre, claro, havíamos sido vítimas do Bicho Invisível.

Quando a Clarice não agüentou mais de tanto medo e começou a chorar, ficamos com pena e decidimos parar com aquilo, até porque já estava se tornando repetitivo. Depois de acalmá-la, dizendo que o Bicho Invisível tinha ido embora (nosso arrependimento não era tanto a ponto de contarmos que o tínhamos inventado), propomos brincar nos cipós de uma mata pertinho da velha casa.

A pequena, que adorava pendurar-se nos cipós, ficou um pouco mais animada. Enxugou as lágrimas com a mão e nos olhou, esperançosa:

– Mas o Bicho Invisível foi embora mesmo?

Mal disfarçando o riso, garantimos solenemente que sim, e rumamos as três para o meio das árvores. Passamos uma meia hora muito divertida, cada uma querendo se embalar mais forte do que as outras nos balanços improvisados nos cipós ou pendurando-se como se fosse trapezista. Quando demos por nós, Clarice sumira.

Primeiro ficamos preocupadas, mas depois de procurarmos um pouco Eva sorriu.

– Ela desconfiou que a enganamos e está querendo dar o troco – sussurrou-me ao ouvido.

Eu também achava que podia ser isso, mas mesmo assim estava temerosa. Afinal, éramos as mais velhas, e portanto responsáveis por ela. Fosse o que fosse, deveríamos continuar procurando.Acabamos por encontrá-la mais de cem metros distante de onde estávamos brincando, deitada ao lado de um tronco caído – e desmaiada. Abaixei-me e toquei-a no rosto.

– Clarice, levanta.

Mas a menina não se mexeu. Comecei a ficar com medo. Eva, menos paciente que eu, começou a sacudi-la, levemente a princípio, depois com mais força. Clarice finalmente abriu os olhos, mas parecia em transe. Debatia-se nos nossos braços, estapeando-nos com uma força que não sabíamos que ela possuía.

– O Bicho... O Bicho Invisível... – gritava sem parar.

Foi só a muito custo que conseguimos acalmá-la. Para mim, ela parecia realmente assustada, mas Eva desconfiava seriamente que era tudo fingimento, uma oportunidade que a nossa pequena amiga encontrara para nos dar uns tabefes (merecidos) pelo que fizéramos antes.

– Não tem bicho nenhum – cortou Eva, enquanto praticamente carregávamos Clarice para longe dali.

– Tem sim... Vocês mentiram... Ele não foi embora... – choramingava Clarice. – Ele me pegou quando eu tava procurando um cipó maior para me balançar... me arrastou até lá... e disse que ia voltar depois... para pegar vocês...

Foi o suficiente para nos fazer parar. Mesmo sabendo que não existia bicho nenhum, senti um arrepio. A fedelha falava com tanto medo e tanta certeza! Eva olhou-a com uma cara que achei que ia se enfurecer e dar-lhe um safanão, mas aí ela começou a rir sem parar...

– Você tem cada uma, Clarice... – disse, voltando a andar e praticamente arrastando a menor com ela.

Por algum motivo que até hoje não consigo entender, eu fiquei ali parada vendo-as se afastarem, Clarice chorando, Eva rindo. Era algo surreal. Inventáramos aquilo, e agora eu me sentia amedrontada porque a pequena invertera o jogo e queria nos assustar. Eu até aceitava que Eva conseguisse fingir bem, pois ela tinha uma cara de pau tremenda, mas a Clarice...

Sacudi a cabeça para parar de pensar besteiras e dei um passo na tentativa de alcançá-las, mas parei. Não, fui parada. Era como se alguém, ou algo, me segurasse, puxando-me para trás. Comecei a me debater, mas não adiantou. Gritei, mas minhas amigas já estavam longe, e não me ouviram.

Foi quando eu senti as afiadas unhas do Bicho Invisível rasgando minha pele, e desmaiei.

domingo, 15 de março de 2009

A última estripulia

Maristela Scheuer Deves

Aquele tempo já vai longe, mas, quando penso, pareço ainda estar vendo a cena, como um filme muitas e muitas vezes repetido. Éramos três, nos nossos seis ou sete anos, idade em que alguns têm medo, mas a maioria inocente se acha imbatível e indesafiável. Claro, acreditávamos (em parte) nas histórias de fantasmas que os irmãos mais velhos contavam para tentar nos assustar, mas, desconfiados de suas intenções, preferíamos pensar que, se um dia nos deparássemos com algum ser do além, saberíamos como enfrentá-los com a nossa super-força de crianças travessas.

Pobres de nós. Pobre Carlos Alberto, pobre Carmem... pobre de mim, também, embora tenha conseguido (terei mesmo?) me safar com apenas algumas seqüelas... A ingenuidade, essa estranha força que geralmente protege os pequenos e os encoraja a seguir adiante e crescer, daquela feita foi macabramente fatal. Vendo agora, com olhos de adulto – e desde aquele dia sem nenhuma ingenuidade –, percebo porém que não teríamos como saber. Mesmo os mais velhos tinham medo de ali passar apenas de noite, e já fizéramos aquelas mesmas estripulias tantas e tantas vezes!

Foi num dia frio, junho ou julho, não lembro direito – embora recorde, e nunca vá esquecer, cada momento e cada fato desde que entramos no velho cemitério. Eu, com minha grossa japona de nylon marrom, recheada com um blusão de lã castanho, gorro de crochê na cabeça, meias grossas e botas de borracha amarelas que tinham sido do meu irmão. Carmem, com seu costumeiro casaco de lã azul claro e gorro multicolorido, que tantas vezes invejei pensando que se parecia com um arco-íris. Mesmo Carlos Alberto, que nunca parecia sentir frio, naquele dia cedera às baixas temperaturas (ou às recomendações de sua mãe) e se agasalhara.

Mesmo entrouxados como estávamos, ignoramos os pedidos de que brincássemos no quintal de minha casa. Depois de tantos dias chuvosos em que a rala diversão se restringira à televisão e às rodas de faz-de-conta, queríamos mais era aproveitar o sol e correr até onde pudéssemos. Só não fomos pular do telhado na casa da vizinha porque esta, que se arrepiava só de pensar em um de nós quebrando um braço ou perna, agora ficava vigilante e sequer nos deixava chegar perto do cinamomo que escalávamos para chegar nas telhas.

Depois de esgotar as possibilidades das árvores próximas à minha própria casa, alguém – ou teriam sido todos, de uma só vez? – teve a idéia: ir caminhar sobre os muros do cemitério, atividade exploratória que costumávamos fazer pelo menos uma ou duas vezes por semana.Fosse de quem fosse a sugestão, foi aceita por unanimidade, e corremos todos pelas quase desertas duas quadras de rua de chão batido que nos separavam do campo santo (santo?, me perguntei depois, e continuo até hoje sem resposta) do vilarejo em que morávamos. Se pelo menos soubéssemos que o improvisado playground do qual tanto gostávamos só não se tornaria nas próximas horas a nossa morada definitiva porque eu tive a proteção dos santos e porque Carmem e Carlos Alberto... bem, melhor seria que eu pudesse partilhar a vã esperança de alguns, de que um dia eles ainda venham a ser encontrados.

Mas, voltemos àquela tarde, por mais terríveis e dolorosas que me sejam as lembranças. Talvez seja melhor eu fazer de conta que estou relatando um dos filmes que naquela tenra idade gostava de assistir escondida (meus pais me proibiam pensando que eu fosse ter maus sonhos e acordar gritando durante a noite, o que nunca aconteceu), e que desde então nunca mais pude ver – pois depois da última estripulia do nosso trio, passei a ter pesadelos noite após noite sem precisar do incentivo de vídeos de terror. E, confesso, não me sentiria nem um pouco usurpada se não tivesse sido um dos atores protagonistas daquela trama...

Deviam ser umas três horas da tarde quando chegamos ao enferrujado portão de ferro. Para ir mais depressa, empurramos os três juntos, e quando ele cedeu disputamos outra corrida para ver quem chegava primeiro aos velhos túmulos dos suicidas, colocados no fundo do cemitério, bem atrás dos outros. Várias vezes pensei que talvez tenha sido impressão minha, mas algo me diz que eu realmente senti um pouco mais de frio nos segundos que levei para chegar até o ponto combinado. Levemente emburrada por ter sido a segunda, depois de Carlos Alberto ("Isso não vale", protestei, "os meninos sempre são mais rápidos"), não dei a mínima para uma possível queda da temperatura e, sem-cerimônia como sempre, subi no túmulo mais próximo para mais facilmente alcançar o topo do muro de pedra que circundava a área.

Andar sobre o muro do cemitério era, de longe, a brincadeira que mais nos agradava, embora nunca tivesse vencedores ou vencidos (ou talvez por isso mesmo). Numa época em que sonhávamos em ser equilibristas de circo, aquele era o lugar ideal para treinos, até porque ficava longe da vista de nossos pais e ninguém ali nos repreendia dizendo que poderíamos cair se não fôssemos mais devagar. Sem falar, é claro, que desistíramos de passar de túmulo em túmulo dando beijos nos anjinhos de pedra desde que Carlos Alberto ficara com a boca toda inchada após ser ferroado por marimbondos instalados atrás de um desses seres alados...

As primeiras voltas transcorreram sem problemas, eu na frente, de vez em quando dando piruetas para mostrar o equilíbrio, Carmem logo atrás e, fechando a fila, o Carlinhos (que hoje estariam já, como eu, perto dos 30 anos se tivéssemos seguido a ordem de ficarmos em casa). Por que, me pergunto, como já me perguntei milhões de vezes, éramos crianças tão teimosas? Talvez alguns puxões de orelha dados a tempo tivessem surtido efeito, mas, sinceramente, duvido – nada nos faria desistir das nossas traquinagens, não quando, fãs que éramos de desenhos de super-heróis, nos sentíamos iguais à Mulher Maravilha, ao Homem Aranha e ao Super Homem.

Cansada de andar e andar, Carmem, que se desinteressava mais rapidamente das brincadeiras que inventávamos, resolveu descer depois de uma meia hora. Como estávamos perto da fileira de sepulturas das criancinhas, algumas das quais enterradas há décadas, minha pequena companheira se dirigiu para lá – era outro de nossos passatempos ficar olhando as fotos dos falecidos, e tínhamos atração especial por aqueles, que tinham sido crianças iguais a nós. Teriam eles um dia brincado também nos mesmos muros daquele cemitério?, perguntáramos a nós mesmos não apenas uma vez. Ao ver o que nossa amiga fazia, Carlos Alberto resolveu imitá-la. Eu, que já estava me vendo a desfilar sobre a corda bamba num dia de espetáculo e lona cheia, resolvi treinar mais um pouco. E acho que foi o que me salvou.

Em meio a meus delírios circenses, cuidava pelo canto do olho o que os outros dois faziam. Se eles fossem embora e me deixassem, como eu poderia depois dizer para a minha mãe que tinha sido por idéia e insistência deles que eu me demorara tanto a brincar no cemitério? Claro, ela já estava acostumada e sabia que essas desculpas eram esfarrapadas, mas era melhor não facilitar... Por isso, desci ligeira do muro quando, depois de um minuto de distração, não pude mais ver onde eles estavam. Sem qualquer preocupação que não a companhia e a necessária desculpa (embora mais uma vez eu percebesse que a temperatura continuava a cair), saí a procurá-los atrás das fileiras de jazigos.

O velho cemitério era enorme, um verdadeiro museu para as nossas explorações pseudo-arqueológicas. Depois de percorrer algumas fileiras, acabei esquecendo-me de que estava atrás dos meus amigos e fiquei a ler (sim, tínhamos sete anos, lembro agora, pois já estávamos na primeira série), soletrando com dificuldade, os estranhos e enigmáticos epitáfios em alemão de alguns túmulos mais antigos. Depois, fui até onde estavam enterrados meus bisavós Jacob e Bárbara, que eu não conhecera, e demorei-me um minuto a rezar por eles. Não havia mais flores nos vasos, por isso corri até a parte onde não havia ninguém sepultado e cresciam algumas moitas floridas em meio a pés de aipim plantados por um ex-zelador.

Enquanto colhia alguns cachos amarelos ouvi chamarem meu nome, e virei-me lembrando que me perdera de Carmem e Carlos Alberto. Sem ver ninguém, levei as flores até meus bisavós e voltei a percorrer a área, desta vez chamando alto o nome de meus colegas de aventuras. Após uns 10 minutos de buscas, irritada porque não me respondiam, pensei que estavam escondendo-se de propósito e fiquei a matutar o que fazer. A zanga dizia que eu devia ir embora e deixá-los para trás, mas eu achava que deveria armar depois uma vingança maior. Se eu soubesse que nunca teria a oportunidade de me vingar, e nem o quereria mais, dentro de pouco tempo...

Comecei a correr entre os túmulos, pensando em surpreendê-los, mas constatava com uma raiva cada vez maior que o esconderijo que tinham encontrado devia ser muito bom. Não haviam saído pelo portão, disso eu tinha certeza – enquanto andava pelo muro, eu estava de frente para a entrada, e por ali eles não tinham passado. "Tá bom, eu desisto, não sei onde vocês estão", gritei, dando a senha para que aparecessem e esperando ouvir seus risos em resposta. Mas, mais uma vez, foi o silêncio que me respondeu. Foi então que percebi que algo não podia estar bem. No céu, o sol já ia se pondo, embora eu não tivesse percebido que se passara tanto tempo assim. E com o anoitecer, o frio se intensificava mais e mais, provocando-me calafrios – ou pelo menos foi o que eu pensei então.

Julguei ter visto alguém me espiar por trás de uma lápide do outro lado, e quase respirei aliviada. Ao chegar lá, outra vez não havia ninguém. Já que não querem aparecer, eu pensei, ainda crente de que tudo não passava de mais uma brincadeira (inventada pela Carmem, com certeza, pois ela adorava pregar peças nos outros), resolvi ir para casa. Os outros que fossem depois, até porque deviam estar me vendo de onde estavam. Foi eu colocar o pé no portão, no entanto, que eu ouvi o grito. A cidade inteira deve tê-lo ouvido, de tão forte e pavoroso que foi. Não foi socorro, não foi me ajudem, não foi nenhuma palavra que eu conhecia até então ou que vim a conhecer depois. Foi a mais pura manifestação de horror que se poderia conceber, provavelmente ainda maior. Tão verdadeira que eu sequer teria como pensar que se tratasse de encenação – podíamos querer ser artistas, mas ninguém tinha adquirido ainda tal capacidade dramática.

Os calafrios vieram mais fortes, enquanto o grito se repetia. Eram, misturadas e dezenas de vezes ampliadas, as vozes da Carmem e do Carlos Alberto, não havia dúvida. A tremedeira não tinha parado, mas, com a coragem típica dos pequenos que acham que podem enfrentar qualquer coisa, corri para o local de onde viera o som, disposta a salvar os meus amigos. Mas eu jamais, em minha curta vida até aquele dia, por mais filmes de terror que eu tivesse visto escondido de meus pais, tinha imaginado deparar com o que eu vi atrás do túmulo de um enforcado que recentemente havia sido sepultado – um daqueles sobre os quais costumávamos pular para alcançar a borda do muro.

Até hoje, a cena povoa as noites em que me reviro na cama, encharcando os lençóis de suor e acordando aos berros.No recuo entre duas sepulturas, uma das quais parecia ter sido arrancada do chão por uma força sobre-humana, estavam meus amigos. O pavor estampado nos olhos dos dois seria suficiente para acabar com quaisquer desconfianças que ainda me restassem, mas isso não era preciso: para garantir a veracidade da situação, a cara carcomida e cheia de vermes do homem que em vez de estar dentro caixão aberto ali do lado, como a lógica e a razão pregavam que devia ser, me encarava enquanto segurava meus colegas, cada um erguido do chão em uma de suas enormes mãos. O grito que se ouviu então saiu de minha boca, pois os outros não conseguiam mais pronunciar nenhuma palavra. E voltei a gritar quando também a lápide que ostentava a foto do suicida mais próximo caiu para um lado, dando espaço para outro rosto putrefato, e senti uma mão igualmente decomposta segurar-me pelo ombro...

Graças a Deus, a força quase sempre nos surge quando mais precisamos dela, e o medo é um combustível tão eficaz quanto o mais refinado derivado de petróleo. Sem conseguir desviar os olhos das outras crianças (não, das outras crianças vivas, pois já alguns pequenos túmulos começavam a liberar também suas cargas), desvencilhei-me não sei como do braço que tentava me cingir, e saí correndo de costas até tropeçar no portão. Nessa hora, em que o sol já se escondia em definitivo mas ainda lançava alguns raios capazes de ajudar a visão, vi pela última vez os rostos agora contorcidos – não sei se de dor ou de puro medo – daqueles que eram os meus melhores amigos. Então, tudo escureceu, inclusive meus olhos, e só voltei a mim quando uma multidão de pessoas que os gritos atraíram levantaram-me e me levaram para baixo de uma torneira esquecida a um canto.

O resto do dia, ou da noite, visto que soube depois já serem mais de 19h, foi uma loucura quase tão grande quanto a cena que eu presenciara, e continua igualmente gravado a fel em minha memória. Atrapalhada, eu tentava responder às perguntas que me faziam, mas as respostas me saíam incoerentes, entre lágrimas e gritos gaguejados. Só o que conseguia balbuciar era "os rostos, os rostos deles, eles estavam com muito medo". E via, mais uma vez e repetidamente, o mudo pedido de ajuda que neles estava estampado antes de eu desmaiar.

Nem as lanternas nem o potente farol trazido pelos bombeiros foram suficientes para que a Carmem e o Carlos Alberto fossem encontrados. Os voluntários das redondezas tinham se divididos em grupos para cobrir todo o cemitério, mas, passada mais de uma hora, os únicos achados haviam sido sete ou oito túmulos arrombados, com os corpos jogados fora do caixão – estranhamente para os outros, mas não para mim, próximos um do outro junto ao setor dos suicidas. Agora, já não era mais apenas eu que chorava baixinho. Ao meu lado, o pranto era ainda maior por parte das mães dos meus amigos, e os pais também já estavam quase entregando os pontos. O lado de fora do campo santo também foi investigado, mas se não havia nem as pegadas que seriam de se esperar no barro ainda mole da chuva dos dias anteriores, quanto mais a pista dos dois pequenos.

Alguns aventaram que devia ser seqüestro, e que o pedido de resgate viria sem demora. Outros, que surpreendêramos profanadores de túmulos em pleno ato e por isso fôramos atacados (ninguém parecia ver que estávamos ali há horas até tudo acontecer), os outros dois levados e eu escapara. Perguntavam-me isso e aquilo, querendo que eu confirmasse hipóteses, mas eu só conseguia chorar, até porque nem eu mesma tinha coragem de acreditar no que os meus olhos tinham visto. A meia-noite chegou, sem que nada de novo acontecesse. Para meu alívio, alguém se lembrou de me levar embora antes que os outros desistissem das buscas para aquele dia. Se é que se pode chamar de alívio uma noite de olhos arregalados, febre e tremores, na qual nem eu nem meus pais conseguimos dormir pois eu me negava a ficar sozinha.
Fiquei mais de um mês sem ir na escola, sem querer sequer sair de casa. O sol lá fora já não era mais convidativo como antes, e não adiantava os coleguinhas passarem lá depois da aula me convidando para brincar – sem a Carmem e o Carlinhos, eu não vou, respondia sempre, em minha surda teimosia, com a esperança de que tudo não tivesse passado de um pesadelo da noite anterior. Mas, no fundo, eu sabia desde o princípio: sabia que nada seria encontrado no cemitério, onde os cadáveres fedorentos já haviam sido reenterrados; sabia que não viria nenhum telefonema ou pedido de resgate; sabia que não se tratava de uma traquinagem que passara da conta; sabia que os meus amigos não voltariam jamais...

Isso aconteceu já fazem mais de 20 anos, e depois de meses de espera frustrada duas pequenas cruzes foram colocadas junto à fileira das crianças. A cidade inteira compareceu ao enterro simbólico, sem corpos, mas com muita emoção. A cidade inteira, menos eu – nada nem ninguém me faria voltar de novo àquele lugar. E nunca mais voltei, nem há cinco anos, quando meu avô foi sepultado. Preferi ficar na igreja, rezando por sua alma e por todas as crianças ingênuas e inocentes que acreditam que os mortos estão mortos, e que só os vivos é que podem nos fazer algum mal...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Temporada de caça

(Maristela Scheuer Deves)

Tudo começou certo dia quando, durante o momento cívico, o professor hasteava a bandeira e uma vespa picou-lhe a cabeça. Indignado com a audácia do inseto, o mestre declarou guerra a esses pequenos “bandidos”.

– A partir de hoje, pago um cruzeiro a quem me trouxer 100 vespas, abelhas ou marimbondos mortos – declarou aos alunos, fazendo a alegria da garotada.

Querendo incluir na lista outros animais que considerava peçonhentos, o mestre decidiu que pelo mesmo valor compraria também 10 aranhas ou um rabo de cobra venenosa.

Foi um alvoroço na escola da pequena comunidade rural de Rincão Vermelho! Daquele dia em diante, os meninos das redondezas começaram a passar todo o tempo livre à cata dos “produtos”. Se alguém destruía um ninho de vespas, lá estavam os pequenos, contando os 100 insetos para montar mais um pacotinho e levar ao professor, que pagava por eles e enterrava no quintal da escola.

– Já ganhei 10 cruzeiros – vangloriava-se Luizinho, contando as moedas comercializadas com a venda dos bichinhos.

– E eu, 12 – completava Adão, que não podia ficar para trás. A concorrência era grande, e foi se tornando cada vez mais acirrada.

Com o tempo, as crianças foram ficando mais espertas – e malandrinhas, também. Percebendo que o mestre não contava as vespas ou abelhas ao recebê-las, começaram a juntar apenas 80 ou 90 em cada pacote, pois assim rendia mais.

As aranhas também eram muito procuradas, e os alunos desenvolveram até mesmo uma técnica especial para pega-las: colocavam uma bolinha de cera na ponta de um barbante e a desciam nos buracos do quintal, como isca. Deu até briga quando Adão descobriu que Carlinhos, outro colega da terceira série, havia “pescado” umas aranhas atrás de uma mata da propriedade do seu pai.

– Se foi no terreno do meu pai, as aranhas são minhas – defendia Adão, mostrando os punhos.

– Eu é que as peguei, então elas são minhas – defendia-se Carlinhos.

O professor teve de apartar a briga, e, como já tinha pagado pelos insetos e não iria pagar duas vezes, apenas aconselhou Carlinhos a não caçar mais nas terras da família do outro menino. Adão não gostou, mas conformou-se.

A temporada de caça seguiu aberta por várias semanas. Numa segunda-feira, Luizinho ia para a escola quando, no caminho, levou um susto: quase pisou numa cobra. Acabou vendo que não era venenosa – os meninos maiores é que a tinham matado e colocado no meio da estrada, para assustar as meninas. Aproveitando a “sorte” de ela já estar morta, Luizinho cortou o rabinho do réptil, vendendo-o ao mestre como se fosse animal peçonhento. Tendo visto o que o colega fizera, outros o delataram.

Foi a gota d’água, e o professor decidiu encerrar sua guerra aos insetos e animais peçonhentos. Até porque, provavelmente, boa parte do seu salário devia estar sendo comprometida com a aquisição dos “troféus”...