quarta-feira, 18 de março de 2009

Dúvida cruel

Eu não acredito, mas eles insistem em dizer que, ontem, eu morri. Um absurdo, claro: não vejo como isso possa ter acontecido. Ontem foi um dia como outro qualquer. Acordei às sete horas, tomei banho, preparei o desjejum e fui para o escritório. Não vi Maria, minha esposa, porque ela vai cedinho à feira, todas as sextas. As crianças ainda estavam dormindo – estão de férias e, por isso, têm todo o direito de dormir até mais tarde. O porteiro do prédio não me cumprimentou quando eu saí, provavelmente estava de mau humor. O que me irritou, mesmo, foi que nenhum motorista de táxi parou ao meu aceno. Bando de mal-educados!

Acabei andando as nove quadras até a empresa, mas, mesmo assim, não me senti cansado. Por isso, subi as escadas em vez de pegar o elevador. Quando cheguei na porta do escritório, vi que a secretária, Tereza, chorava. Sou uma pessoa discreta, passei reto murmurando apenas um bom-dia, ao qual ela não respondeu. Passei a manhã toda lendo relatórios atrasados, e, milagre dos milagres, o telefone não tocou nenhuma vez e ninguém bateu à porta para me interromper.

Quando dei por mim e olhei no relógio, já eram quase duas da tarde. Como não estava com fome e sentia uma grande energia, resolvi não interromper o trabalho. Segui até o final da tarde, sem parar. Foi só às cinco horas, quando finalmente achei que já tinha feito muito por um dia só e ia deixando o escritório, que pela primeira vez ouvi falar da minha morte.

A notícia veio pelos lábios de Tereza, que agora parecia um pouco mais calma do que pela manhã:

– Doutor Marcos, estou saindo para ir ao velório do doutor Fernando – disse ela ao meu sócio, que também passava por sua mesa no momento.

Estaquei. Que brincadeira era aquela? Ao meu velório? Ela estava louca, ou se referia a algum outro Fernando? Parei bem na sua frente e fiquei encarando-a, para ver se ela se explicava. Sua única reação, no entanto, foi encolher-se e esfregar os braços, como se sentisse um frio súbito.

– E as coroas, em nome de todos nós, você já enviou? – quis saber Marcos, acrescentando antes que a secretária respondesse: – Envie meu pêsames à Maria, e diga que eu passo lá mais tarde. Ainda não estou acreditando! Meu Deus, eu e o Fernando trabalhamos juntos desde que saímos da faculdade!

Esperei um minuto, com certeza de que logo os dois iriam cair na gargalhada – embora eu, particularmente, considerasse a piada de péssimo gosto. Já ia abrir a boca para perguntar se estavam me gozando porque eu passara o dia enfurnado na minha sala quando Tereza voltou a chorar. Atônito, estendi o braço para consolá-la, mas meu colega foi mais rápido e enlaçou-a num abraço desajeitado. Olhando para ele, percebi que, por baixo dos seus óculos, também corriam duas grossas lágrimas.

– Ei, vocês dois querem me explicar o que está acontecendo? – disse eu, por fim, uma pontinha de medo começando a se insinuar no meu peito.

Foi como se eu nada tivesse dito. A secretária chorou silenciosamente por mais alguns minutos e, depois, desvencilhou-se dos braços de Marcos.

– O senhor sabe – disse ela, olhando pare ele e continuando a me ignorar – que eu sempre tive uma queda pelo doutor Fernando? Tão distinto, tão elegante... Claro, nunca disse nada, ele era casado e eu sou uma mulher direita, mas, agora, fico pensando se não devia ter aproveitado...

Chocado com a revelação, eu não sabia se começava a rir ou se perguntava se ela estava brincando. Enxugando os olhos, ela se recompôs e disse, num sorriso triste:

– Mas, por favor, doutor Marcos, não conte isso para ninguém. Deus me livre, ele lá, morto, e eu aqui falando essas coisas...

Saí batendo a porta. Os dois deixaram escapar um grito de espanto, mas azar: se queriam ficar naquela brincadeira idiota, como se eu não estivesse ali, eu é que não iria ficar escutando baboseiras, muito menos voltar atrás para pedir desculpas por tê-los assustado. Ignorei o elevador e mais uma vez preferi as escadas – um pouco de exercício ajudaria a me acalmar e a pensar melhor sobre o assunto. Que, pensar sobre o assunto, que nada!, xinguei a mim mesmo. Onde já se viu ficar dando bola para quem fingia que eu tinha morrido?

Cheguei em casa quando já escurecia (mais uma vez, nenhum táxi tinha parado para mim). Ao dobrar a última esquina, estranhei a movimentação: dezenas de carros estavam estacionados próximo ao meu prédio, outros paravam na frente dele e deixavam passageiros. Será que algum dos vizinhos estava dando uma festa e sequer me convidara?, pensei, um pouco enciumado.

O porteiro da noite estava ocupado e não me viu passar. Subi até meu apartamento lembrando que não comera nada desde a manhã, e pensando que uma janta gostosa me faria bem. Aquela cena estranha no escritório me deixara sentindo esquisito, só podia ser fome. Será que Maria já estava com a comida pronta?, questionei-me, e lancei um olhar para a porta do 202. Não precisei pegar a chave para abri-la: chorosa, Maria encostava-se ao batente, recebendo abraços e consolos de mais um casal de amigos que chegava.

– O que é isso? O que está acontecendo aqui? – perguntei à minha mulher.

Mais uma vez, fui solenemente ignorado. Deixando a porta escancarada, Maria e os outros dois apartamento adentro, até a sala. Segui-os, e quase desmaiei ao constatar que o aposento estava cheio – de pessoas e de coroas de flores. No centro, um esquife, iluminado por duas velas. Meus filhos, que também choravam, correram agarrar-se às saias da mãe.

Caminhei até o meio de toda aquela gente, certo de que todos os olhares se voltariam para mim, percebendo o engano da situação. Ninguém me deu bola. Tentei puxar conversa com um ou dois velhos conhecidos, que há anos eu não via e que agora ali estavam, mas eles também não prestaram atenção em mim. Por fim, aproximei-me do caixão. No entanto, não tive coragem de olhar para dentro.

Depois disso, corri trancar-me no meu quarto, com medo de estar enlouquecendo. Ou eles todos estão loucos, ou sou eu que devo ser internado. Morto, pelo menos, sei que não estou. Não consegui sequer pregar o olho a noite inteira desde que tudo isso aconteceu, como posso estar dormindo o sono eterno? Fiquei esperando Maria vir se deitar, mas ela não veio. Passou a noite toda ao lado do caixão, soluçando. Apesar do absurdo da situação, senti-me comovido pela sua dedicação. Sinal que me ama. Mas como pode pensar que estou morto? Como pode aceitar tranqüilamente todos os pêsames?

Já são novamente sete horas da manhã, falta apenas uma hora para o enterro. Para o meu enterro, como eles insistem em dizer. E, mesmo depois de uma noite inteira pensando, ainda não sei o que devo fazer. Ficar aqui, quieto, no meu canto? Voltar lá na sala e tentar novamente explicar que estou vivo, olhem, eu estou aqui? Ou dar-me por vencido, já que eles são maioria, e acreditar eu também que eu morri? Oh, Senhor, que dúvida cruel!

terça-feira, 17 de março de 2009

As noivas de preto

Maristela Scheuer Deves
Aquelas velhas fotografias de noivas vestidas de preto sempre tinham me intrigado, desde que eu as encontrara em um velho baú no sótão da casa de meus avós. Eu tinha uns doze ou treze anos na ocasião. Curiosa como todos são nessa idade, corri perguntar à minha avó quem eram aquelas mulheres e por que tinham se casado assim. Sua reação, no entanto, deixou-me espantada.

Em vez de responder à minha inocente pergunta, ela ficou olhando demoradamente as fotos, com uma expressão esquisita. Não consegui identificar exatamente o que via no seu rosto, mas parecia ser uma mistura de medo e curiosidade. Depois de alguns minutos em silêncio, quis saber onde eu encontrara aquelas imagens. Contei-lhe do baú, e ela pediu que devolvesse as fotos ao seu lugar e não mais pensasse no assunto.

Insisti, mas sem resultado. Como eu não era de desistir facilmente, procurei desta vez o meu avô. Sua reação não foi muito melhor ao olhar o que eu tinha em mãos, mas pelo menos ele deu-me uma explicação: aquelas eram sua avó, ou seja, minha tataravó, e suas irmãs. Haviam se casado de vestidos e véus pretos porque estavam de luto, o pai delas havia morrido pouco tempo antes.

Fiquei a matutar comigo mesma por que é que elas não haviam esperado um pouco mais para casar-se, pois então poderiam usar o branco tradicional. Também achei estranho todas elas terem contraído núpcias na mesma época, mas vovô disse que fosse brincar e o deixasse fazer suas coisas.

Por alguns dias ainda enchi meu pai e minha mãe de perguntas, mas como as respostas variavam de um “eu é que sei?” a “vai ver, era moda na época”, acabei desistindo e esquecendo o assunto. Numa ocasião seguinte em que fui fuxicar nas coisas guardadas no sótão, não encontrei mais as fotografias, até mesmo o baú havia sumido de lá. Achei estranho, mas não dei muita importância ao assunto.

Nas últimas semanas, porém, a lembrança daquelas noivas vestidas de preto vem me atormentando. Sonho com elas todas as noites, e penso nelas cada minuto do meu dia. Não sou mais uma criança: estou com 24 anos e vou casar-me em poucos dias. Até já comprei meu vestido, lindo, resplandecente, branco como a neve. Minha mãe chorou quando o viu, e a princípio creditei seu choro à emoção de que sua única filha iria se casar. Mas agora sei que não era isso. E sei, também, o porquê daqueles vestidos negros que há tanto tempo despertaram a minha curiosidade...

Descobri por acaso, enquanto procurava velhas fotos minhas para o painel de momentos marcantes de minha vida, que ficará em exposição na entrada do salão de festas. Embaixo das dezenas de álbuns com registros feitos desde a minha infância, encontrei um envelope amarelado pelo tempo. Curiosa, abri-o. Lá, uma única foto, de um casal cujo rosto risonho eu reconheci: meus pais, muito mais jovens do que agora, no dia do seu casamento. Nesse momento, dei-me em conta que nunca antes havia visto imagens daquela data, e compreendi também o motivo: o vestido que minha mãe envergava, de seda e com lindos bordados, era negro.

Minha mãe surpreendeu-me com a foto nas mãos, e, perante meu olhar indagador, pôs-se novamente a derramar lágrimas. Mesmo sem entender o que estava acontecendo, abracei-a e confortei-a, como se a mãe fosse eu. Não pedi explicações quando ela se acalmou, mas ela as deu mesmo assim. Sabia que era hora, e que não podia adiar mais.

– Quando eu me casei com seu pai – começou ela –, ninguém me disse nada. Sofri muito com o que aconteceu, e sei que você também vai sofrer, minha filha, mas pelo menos você vai estar preparada.

Antes de prosseguir, ela levantou-se e foi até uma gaveta trancada. Tirou uma chavezinha de uma corrente pendurada no pescoço e a abriu. Lá de dentro, pegou uma caixa de madeira, que colocou sobre a mesa, chamando-me para ver o conteúdo. Ali estavam as antigas fotos que eu vira ainda criança, num baú no sótão dos meus avós. E também outras, muitas outras, todas mostrando noivas vestidas de preto. Lá estavam minha avó, todas as minhas tias por parte de pai... Aturdida, fiquei passando uma a uma, sem saber o que dizer.

– Sim, minha pequena. Todas as mulheres da nossa família, pelo lado do seu pai, carregam essa maldição – disse. Vendo que eu abria a boca para perguntar algo, apressou-se em prosseguir –
Nós não escolhemos nos casar de preto. Na verdade, nós não nos casamos de preto. Meu vestido e meu véu eram tão alvos quanto os seus. Mas na hora da cerimônia, quando eu coloquei a aliança no dedo, ele começou a mudar...

Ela trocara de roupa no meio da festa, contou, com a desculpa de usar algo mais confortável. A verdade era que, para seu desespero, ele estava ficando a cada minuto mais escuro. Pensou que as primeiras fotos estariam boas, pelo menos, mas, poucos dias depois de as receber do fotógrafo, nelas também o vestido passara a ficar preto.

– Queimei quase todas elas, junto com o vestido que eu tinha gostado tanto. Guardei apenas essa. Foi só depois de tudo ter acontecido que minha sogra, sua avó, contou-me que isso acontecia há quatro gerações. Desde que uma tia-avó do seu avô foi rejeitada pelo restante da família por se casar grávida, sendo obrigada a casar de véu negro, ela amaldiçoou a todos, dizendo que, dali por diante, nunca mais uma mulher da família se casaria de branco. E, até hoje, isso vem se cumprindo...

Tenho menos de uma semana até o dia do meu casamento. Tento afastar os meus pensamentos mórbidos, dizer a mim mesma que isso é fantasia, que deve haver alguma explicação lógica. Talvez tenha sido mesmo luto, talvez... Mas minha mãe não mentiria para mim. Não faria com que eu me angustiasse sem necessidade.

Não contei a meu noivo, para ele não pensar que estou enlouquecendo. Mas hoje pela manhã, acariciando o esvoaçante tecido de meu lindo vestido de sonho, vi uma pequena mancha mais escura em um canto, sob um babado. Outra apareceu na pontinha do véu. Pensei em cancelar o serviço do fotógrafo, para garantir, mas achei melhor encomendar com urgência um vestido de reserva, cor de champanhe, para usar assim que sair da igreja...

segunda-feira, 16 de março de 2009

O Bicho Invisível

Maristela Scheuer Deves

Nem lembro mais a última vez em que fui à praia. Não que eu não goste de mar, sol e calor. É que não quero mostrar meu corpo. Não quero que vejam as cicatrizes nos meus braços, nas minhas pernas, no meu corpo todo. Por isso, sempre uso mangas longas e calças compridas, mesmo no verão. Mas se você pensa que é a vergonha que me impele a esconder a marcas, está enganado. São as lembranças. Se alguém perguntar de onde elas vêm, eu vou ser obrigada a recordar...

Eu era criança, lá pelos meus onze anos. Adorava correr, brincar com minhas amigas. E, principalmente, pregar peças em uma delas, Clarice, a menorzinha. Com apenas oito anos, ela era a vítima perfeita para nossas brincadeiras nem sempre tão inocentes.

Naquela tarde, havíamos ido até uma propriedade dos pais de Eva, a garota que morava em frente à minha casa. Era a “morada velha”, como Seu Balduíno, pai de Eva, chamava o antigo sítio onde a família habitara até minha amiga ter dois ou três anos. O lugar ficava a uns cinco ou seis quilômetros de nossas casas, por isso fomos todas – eu, Eva e Clarice – empoleiradas na traseira da caminhoneta do Seu Balduíno (naquele tempo, isso ainda não era proibido).

Chegando ao sítio, brincamos algum tempo de esconde-esconde, mas logo a brincadeira foi perdendo a graça. Até que chegou a hora em que não conseguíamos encontrar Eva. Era a vez de Clarice procurar, por isso em princípio achei divertido, mas quando já se tinham passado mais de vinte minutos, dez dos quais comigo ajudando na busca, comecei a ficar irritada, e até mesmo um pouco preocupada.

– Apareça, Eva. Você ganhou – chamei, pensando onde afinal ela se escondera. Claro, ela conhecia aquele lugar como a palma da mão, e nós não, era lógico que ela encontraria os melhores esconderijos.

Mesmo com nossa rendição, entretanto, ela não apareceu, e retomamos as buscas. Outros dez minutos e eu a localizei num velho galpão, deitada sobre um monte de palha de milho. Parecia desacordada, e na hora fiquei em dúvida se era verdade ou fingimento. Clarice, que entrara no galpão logo atrás de mim, deu um gritinho ao ver Eva caída ali e correu até ela.

– Acorda, Eva, acorda – disse, quase aos soluços, chacoalhando nossa amiga pelos ombros.
Aos poucos, Eva foi abrindo os olhos. Girou a cabeça, como que para ver onde estava.

– O que aconteceu? Você está bem? – interpelou a pequena, antes que ela pudesse falar qualquer coisa.

Eva disse-nos eu não sabia como fora parar ali, e que não ouvira nossos gritos.

– Só me lembro que eu estava procurando um lugar para me esconder, daí senti uma coisa me puxando para trás. Olhei, e não vi nada... Mas ainda estava sendo puxada, como se fosse por um bicho invisível. Desmaiei, e só acordei agora.

Minha amiga contou sua história com tanta convicção que até mesmo eu pensei que podia ser verdade. Entreolhamo-nos as três e, sem mais uma palavra, corremos para fora dali, para bem longe do Bicho Invisível. Quando passávamos pela porta, no entanto, Eva piscou para mim, e entendi: como eu suspeitara a princípio, aquilo era só mais um plano para amedrontar a Clarice. Sorri comigo mesma, impressionada com o talento de atriz da minha amiga, e resolvi incrementar a história assim que surgisse uma oportunidade.

Fomos brincar no outro lado do pátio, bem longe do galpão – já que agora Clarice não queria nem chegar perto dele. A cada pouco tempo, eu ou a Eva dávamos um jeito de desaparecer e de sermos encontradas “desmaiadas”. Sempre, claro, havíamos sido vítimas do Bicho Invisível.

Quando a Clarice não agüentou mais de tanto medo e começou a chorar, ficamos com pena e decidimos parar com aquilo, até porque já estava se tornando repetitivo. Depois de acalmá-la, dizendo que o Bicho Invisível tinha ido embora (nosso arrependimento não era tanto a ponto de contarmos que o tínhamos inventado), propomos brincar nos cipós de uma mata pertinho da velha casa.

A pequena, que adorava pendurar-se nos cipós, ficou um pouco mais animada. Enxugou as lágrimas com a mão e nos olhou, esperançosa:

– Mas o Bicho Invisível foi embora mesmo?

Mal disfarçando o riso, garantimos solenemente que sim, e rumamos as três para o meio das árvores. Passamos uma meia hora muito divertida, cada uma querendo se embalar mais forte do que as outras nos balanços improvisados nos cipós ou pendurando-se como se fosse trapezista. Quando demos por nós, Clarice sumira.

Primeiro ficamos preocupadas, mas depois de procurarmos um pouco Eva sorriu.

– Ela desconfiou que a enganamos e está querendo dar o troco – sussurrou-me ao ouvido.

Eu também achava que podia ser isso, mas mesmo assim estava temerosa. Afinal, éramos as mais velhas, e portanto responsáveis por ela. Fosse o que fosse, deveríamos continuar procurando.Acabamos por encontrá-la mais de cem metros distante de onde estávamos brincando, deitada ao lado de um tronco caído – e desmaiada. Abaixei-me e toquei-a no rosto.

– Clarice, levanta.

Mas a menina não se mexeu. Comecei a ficar com medo. Eva, menos paciente que eu, começou a sacudi-la, levemente a princípio, depois com mais força. Clarice finalmente abriu os olhos, mas parecia em transe. Debatia-se nos nossos braços, estapeando-nos com uma força que não sabíamos que ela possuía.

– O Bicho... O Bicho Invisível... – gritava sem parar.

Foi só a muito custo que conseguimos acalmá-la. Para mim, ela parecia realmente assustada, mas Eva desconfiava seriamente que era tudo fingimento, uma oportunidade que a nossa pequena amiga encontrara para nos dar uns tabefes (merecidos) pelo que fizéramos antes.

– Não tem bicho nenhum – cortou Eva, enquanto praticamente carregávamos Clarice para longe dali.

– Tem sim... Vocês mentiram... Ele não foi embora... – choramingava Clarice. – Ele me pegou quando eu tava procurando um cipó maior para me balançar... me arrastou até lá... e disse que ia voltar depois... para pegar vocês...

Foi o suficiente para nos fazer parar. Mesmo sabendo que não existia bicho nenhum, senti um arrepio. A fedelha falava com tanto medo e tanta certeza! Eva olhou-a com uma cara que achei que ia se enfurecer e dar-lhe um safanão, mas aí ela começou a rir sem parar...

– Você tem cada uma, Clarice... – disse, voltando a andar e praticamente arrastando a menor com ela.

Por algum motivo que até hoje não consigo entender, eu fiquei ali parada vendo-as se afastarem, Clarice chorando, Eva rindo. Era algo surreal. Inventáramos aquilo, e agora eu me sentia amedrontada porque a pequena invertera o jogo e queria nos assustar. Eu até aceitava que Eva conseguisse fingir bem, pois ela tinha uma cara de pau tremenda, mas a Clarice...

Sacudi a cabeça para parar de pensar besteiras e dei um passo na tentativa de alcançá-las, mas parei. Não, fui parada. Era como se alguém, ou algo, me segurasse, puxando-me para trás. Comecei a me debater, mas não adiantou. Gritei, mas minhas amigas já estavam longe, e não me ouviram.

Foi quando eu senti as afiadas unhas do Bicho Invisível rasgando minha pele, e desmaiei.

domingo, 15 de março de 2009

A última estripulia

Maristela Scheuer Deves

Aquele tempo já vai longe, mas, quando penso, pareço ainda estar vendo a cena, como um filme muitas e muitas vezes repetido. Éramos três, nos nossos seis ou sete anos, idade em que alguns têm medo, mas a maioria inocente se acha imbatível e indesafiável. Claro, acreditávamos (em parte) nas histórias de fantasmas que os irmãos mais velhos contavam para tentar nos assustar, mas, desconfiados de suas intenções, preferíamos pensar que, se um dia nos deparássemos com algum ser do além, saberíamos como enfrentá-los com a nossa super-força de crianças travessas.

Pobres de nós. Pobre Carlos Alberto, pobre Carmem... pobre de mim, também, embora tenha conseguido (terei mesmo?) me safar com apenas algumas seqüelas... A ingenuidade, essa estranha força que geralmente protege os pequenos e os encoraja a seguir adiante e crescer, daquela feita foi macabramente fatal. Vendo agora, com olhos de adulto – e desde aquele dia sem nenhuma ingenuidade –, percebo porém que não teríamos como saber. Mesmo os mais velhos tinham medo de ali passar apenas de noite, e já fizéramos aquelas mesmas estripulias tantas e tantas vezes!

Foi num dia frio, junho ou julho, não lembro direito – embora recorde, e nunca vá esquecer, cada momento e cada fato desde que entramos no velho cemitério. Eu, com minha grossa japona de nylon marrom, recheada com um blusão de lã castanho, gorro de crochê na cabeça, meias grossas e botas de borracha amarelas que tinham sido do meu irmão. Carmem, com seu costumeiro casaco de lã azul claro e gorro multicolorido, que tantas vezes invejei pensando que se parecia com um arco-íris. Mesmo Carlos Alberto, que nunca parecia sentir frio, naquele dia cedera às baixas temperaturas (ou às recomendações de sua mãe) e se agasalhara.

Mesmo entrouxados como estávamos, ignoramos os pedidos de que brincássemos no quintal de minha casa. Depois de tantos dias chuvosos em que a rala diversão se restringira à televisão e às rodas de faz-de-conta, queríamos mais era aproveitar o sol e correr até onde pudéssemos. Só não fomos pular do telhado na casa da vizinha porque esta, que se arrepiava só de pensar em um de nós quebrando um braço ou perna, agora ficava vigilante e sequer nos deixava chegar perto do cinamomo que escalávamos para chegar nas telhas.

Depois de esgotar as possibilidades das árvores próximas à minha própria casa, alguém – ou teriam sido todos, de uma só vez? – teve a idéia: ir caminhar sobre os muros do cemitério, atividade exploratória que costumávamos fazer pelo menos uma ou duas vezes por semana.Fosse de quem fosse a sugestão, foi aceita por unanimidade, e corremos todos pelas quase desertas duas quadras de rua de chão batido que nos separavam do campo santo (santo?, me perguntei depois, e continuo até hoje sem resposta) do vilarejo em que morávamos. Se pelo menos soubéssemos que o improvisado playground do qual tanto gostávamos só não se tornaria nas próximas horas a nossa morada definitiva porque eu tive a proteção dos santos e porque Carmem e Carlos Alberto... bem, melhor seria que eu pudesse partilhar a vã esperança de alguns, de que um dia eles ainda venham a ser encontrados.

Mas, voltemos àquela tarde, por mais terríveis e dolorosas que me sejam as lembranças. Talvez seja melhor eu fazer de conta que estou relatando um dos filmes que naquela tenra idade gostava de assistir escondida (meus pais me proibiam pensando que eu fosse ter maus sonhos e acordar gritando durante a noite, o que nunca aconteceu), e que desde então nunca mais pude ver – pois depois da última estripulia do nosso trio, passei a ter pesadelos noite após noite sem precisar do incentivo de vídeos de terror. E, confesso, não me sentiria nem um pouco usurpada se não tivesse sido um dos atores protagonistas daquela trama...

Deviam ser umas três horas da tarde quando chegamos ao enferrujado portão de ferro. Para ir mais depressa, empurramos os três juntos, e quando ele cedeu disputamos outra corrida para ver quem chegava primeiro aos velhos túmulos dos suicidas, colocados no fundo do cemitério, bem atrás dos outros. Várias vezes pensei que talvez tenha sido impressão minha, mas algo me diz que eu realmente senti um pouco mais de frio nos segundos que levei para chegar até o ponto combinado. Levemente emburrada por ter sido a segunda, depois de Carlos Alberto ("Isso não vale", protestei, "os meninos sempre são mais rápidos"), não dei a mínima para uma possível queda da temperatura e, sem-cerimônia como sempre, subi no túmulo mais próximo para mais facilmente alcançar o topo do muro de pedra que circundava a área.

Andar sobre o muro do cemitério era, de longe, a brincadeira que mais nos agradava, embora nunca tivesse vencedores ou vencidos (ou talvez por isso mesmo). Numa época em que sonhávamos em ser equilibristas de circo, aquele era o lugar ideal para treinos, até porque ficava longe da vista de nossos pais e ninguém ali nos repreendia dizendo que poderíamos cair se não fôssemos mais devagar. Sem falar, é claro, que desistíramos de passar de túmulo em túmulo dando beijos nos anjinhos de pedra desde que Carlos Alberto ficara com a boca toda inchada após ser ferroado por marimbondos instalados atrás de um desses seres alados...

As primeiras voltas transcorreram sem problemas, eu na frente, de vez em quando dando piruetas para mostrar o equilíbrio, Carmem logo atrás e, fechando a fila, o Carlinhos (que hoje estariam já, como eu, perto dos 30 anos se tivéssemos seguido a ordem de ficarmos em casa). Por que, me pergunto, como já me perguntei milhões de vezes, éramos crianças tão teimosas? Talvez alguns puxões de orelha dados a tempo tivessem surtido efeito, mas, sinceramente, duvido – nada nos faria desistir das nossas traquinagens, não quando, fãs que éramos de desenhos de super-heróis, nos sentíamos iguais à Mulher Maravilha, ao Homem Aranha e ao Super Homem.

Cansada de andar e andar, Carmem, que se desinteressava mais rapidamente das brincadeiras que inventávamos, resolveu descer depois de uma meia hora. Como estávamos perto da fileira de sepulturas das criancinhas, algumas das quais enterradas há décadas, minha pequena companheira se dirigiu para lá – era outro de nossos passatempos ficar olhando as fotos dos falecidos, e tínhamos atração especial por aqueles, que tinham sido crianças iguais a nós. Teriam eles um dia brincado também nos mesmos muros daquele cemitério?, perguntáramos a nós mesmos não apenas uma vez. Ao ver o que nossa amiga fazia, Carlos Alberto resolveu imitá-la. Eu, que já estava me vendo a desfilar sobre a corda bamba num dia de espetáculo e lona cheia, resolvi treinar mais um pouco. E acho que foi o que me salvou.

Em meio a meus delírios circenses, cuidava pelo canto do olho o que os outros dois faziam. Se eles fossem embora e me deixassem, como eu poderia depois dizer para a minha mãe que tinha sido por idéia e insistência deles que eu me demorara tanto a brincar no cemitério? Claro, ela já estava acostumada e sabia que essas desculpas eram esfarrapadas, mas era melhor não facilitar... Por isso, desci ligeira do muro quando, depois de um minuto de distração, não pude mais ver onde eles estavam. Sem qualquer preocupação que não a companhia e a necessária desculpa (embora mais uma vez eu percebesse que a temperatura continuava a cair), saí a procurá-los atrás das fileiras de jazigos.

O velho cemitério era enorme, um verdadeiro museu para as nossas explorações pseudo-arqueológicas. Depois de percorrer algumas fileiras, acabei esquecendo-me de que estava atrás dos meus amigos e fiquei a ler (sim, tínhamos sete anos, lembro agora, pois já estávamos na primeira série), soletrando com dificuldade, os estranhos e enigmáticos epitáfios em alemão de alguns túmulos mais antigos. Depois, fui até onde estavam enterrados meus bisavós Jacob e Bárbara, que eu não conhecera, e demorei-me um minuto a rezar por eles. Não havia mais flores nos vasos, por isso corri até a parte onde não havia ninguém sepultado e cresciam algumas moitas floridas em meio a pés de aipim plantados por um ex-zelador.

Enquanto colhia alguns cachos amarelos ouvi chamarem meu nome, e virei-me lembrando que me perdera de Carmem e Carlos Alberto. Sem ver ninguém, levei as flores até meus bisavós e voltei a percorrer a área, desta vez chamando alto o nome de meus colegas de aventuras. Após uns 10 minutos de buscas, irritada porque não me respondiam, pensei que estavam escondendo-se de propósito e fiquei a matutar o que fazer. A zanga dizia que eu devia ir embora e deixá-los para trás, mas eu achava que deveria armar depois uma vingança maior. Se eu soubesse que nunca teria a oportunidade de me vingar, e nem o quereria mais, dentro de pouco tempo...

Comecei a correr entre os túmulos, pensando em surpreendê-los, mas constatava com uma raiva cada vez maior que o esconderijo que tinham encontrado devia ser muito bom. Não haviam saído pelo portão, disso eu tinha certeza – enquanto andava pelo muro, eu estava de frente para a entrada, e por ali eles não tinham passado. "Tá bom, eu desisto, não sei onde vocês estão", gritei, dando a senha para que aparecessem e esperando ouvir seus risos em resposta. Mas, mais uma vez, foi o silêncio que me respondeu. Foi então que percebi que algo não podia estar bem. No céu, o sol já ia se pondo, embora eu não tivesse percebido que se passara tanto tempo assim. E com o anoitecer, o frio se intensificava mais e mais, provocando-me calafrios – ou pelo menos foi o que eu pensei então.

Julguei ter visto alguém me espiar por trás de uma lápide do outro lado, e quase respirei aliviada. Ao chegar lá, outra vez não havia ninguém. Já que não querem aparecer, eu pensei, ainda crente de que tudo não passava de mais uma brincadeira (inventada pela Carmem, com certeza, pois ela adorava pregar peças nos outros), resolvi ir para casa. Os outros que fossem depois, até porque deviam estar me vendo de onde estavam. Foi eu colocar o pé no portão, no entanto, que eu ouvi o grito. A cidade inteira deve tê-lo ouvido, de tão forte e pavoroso que foi. Não foi socorro, não foi me ajudem, não foi nenhuma palavra que eu conhecia até então ou que vim a conhecer depois. Foi a mais pura manifestação de horror que se poderia conceber, provavelmente ainda maior. Tão verdadeira que eu sequer teria como pensar que se tratasse de encenação – podíamos querer ser artistas, mas ninguém tinha adquirido ainda tal capacidade dramática.

Os calafrios vieram mais fortes, enquanto o grito se repetia. Eram, misturadas e dezenas de vezes ampliadas, as vozes da Carmem e do Carlos Alberto, não havia dúvida. A tremedeira não tinha parado, mas, com a coragem típica dos pequenos que acham que podem enfrentar qualquer coisa, corri para o local de onde viera o som, disposta a salvar os meus amigos. Mas eu jamais, em minha curta vida até aquele dia, por mais filmes de terror que eu tivesse visto escondido de meus pais, tinha imaginado deparar com o que eu vi atrás do túmulo de um enforcado que recentemente havia sido sepultado – um daqueles sobre os quais costumávamos pular para alcançar a borda do muro.

Até hoje, a cena povoa as noites em que me reviro na cama, encharcando os lençóis de suor e acordando aos berros.No recuo entre duas sepulturas, uma das quais parecia ter sido arrancada do chão por uma força sobre-humana, estavam meus amigos. O pavor estampado nos olhos dos dois seria suficiente para acabar com quaisquer desconfianças que ainda me restassem, mas isso não era preciso: para garantir a veracidade da situação, a cara carcomida e cheia de vermes do homem que em vez de estar dentro caixão aberto ali do lado, como a lógica e a razão pregavam que devia ser, me encarava enquanto segurava meus colegas, cada um erguido do chão em uma de suas enormes mãos. O grito que se ouviu então saiu de minha boca, pois os outros não conseguiam mais pronunciar nenhuma palavra. E voltei a gritar quando também a lápide que ostentava a foto do suicida mais próximo caiu para um lado, dando espaço para outro rosto putrefato, e senti uma mão igualmente decomposta segurar-me pelo ombro...

Graças a Deus, a força quase sempre nos surge quando mais precisamos dela, e o medo é um combustível tão eficaz quanto o mais refinado derivado de petróleo. Sem conseguir desviar os olhos das outras crianças (não, das outras crianças vivas, pois já alguns pequenos túmulos começavam a liberar também suas cargas), desvencilhei-me não sei como do braço que tentava me cingir, e saí correndo de costas até tropeçar no portão. Nessa hora, em que o sol já se escondia em definitivo mas ainda lançava alguns raios capazes de ajudar a visão, vi pela última vez os rostos agora contorcidos – não sei se de dor ou de puro medo – daqueles que eram os meus melhores amigos. Então, tudo escureceu, inclusive meus olhos, e só voltei a mim quando uma multidão de pessoas que os gritos atraíram levantaram-me e me levaram para baixo de uma torneira esquecida a um canto.

O resto do dia, ou da noite, visto que soube depois já serem mais de 19h, foi uma loucura quase tão grande quanto a cena que eu presenciara, e continua igualmente gravado a fel em minha memória. Atrapalhada, eu tentava responder às perguntas que me faziam, mas as respostas me saíam incoerentes, entre lágrimas e gritos gaguejados. Só o que conseguia balbuciar era "os rostos, os rostos deles, eles estavam com muito medo". E via, mais uma vez e repetidamente, o mudo pedido de ajuda que neles estava estampado antes de eu desmaiar.

Nem as lanternas nem o potente farol trazido pelos bombeiros foram suficientes para que a Carmem e o Carlos Alberto fossem encontrados. Os voluntários das redondezas tinham se divididos em grupos para cobrir todo o cemitério, mas, passada mais de uma hora, os únicos achados haviam sido sete ou oito túmulos arrombados, com os corpos jogados fora do caixão – estranhamente para os outros, mas não para mim, próximos um do outro junto ao setor dos suicidas. Agora, já não era mais apenas eu que chorava baixinho. Ao meu lado, o pranto era ainda maior por parte das mães dos meus amigos, e os pais também já estavam quase entregando os pontos. O lado de fora do campo santo também foi investigado, mas se não havia nem as pegadas que seriam de se esperar no barro ainda mole da chuva dos dias anteriores, quanto mais a pista dos dois pequenos.

Alguns aventaram que devia ser seqüestro, e que o pedido de resgate viria sem demora. Outros, que surpreendêramos profanadores de túmulos em pleno ato e por isso fôramos atacados (ninguém parecia ver que estávamos ali há horas até tudo acontecer), os outros dois levados e eu escapara. Perguntavam-me isso e aquilo, querendo que eu confirmasse hipóteses, mas eu só conseguia chorar, até porque nem eu mesma tinha coragem de acreditar no que os meus olhos tinham visto. A meia-noite chegou, sem que nada de novo acontecesse. Para meu alívio, alguém se lembrou de me levar embora antes que os outros desistissem das buscas para aquele dia. Se é que se pode chamar de alívio uma noite de olhos arregalados, febre e tremores, na qual nem eu nem meus pais conseguimos dormir pois eu me negava a ficar sozinha.
Fiquei mais de um mês sem ir na escola, sem querer sequer sair de casa. O sol lá fora já não era mais convidativo como antes, e não adiantava os coleguinhas passarem lá depois da aula me convidando para brincar – sem a Carmem e o Carlinhos, eu não vou, respondia sempre, em minha surda teimosia, com a esperança de que tudo não tivesse passado de um pesadelo da noite anterior. Mas, no fundo, eu sabia desde o princípio: sabia que nada seria encontrado no cemitério, onde os cadáveres fedorentos já haviam sido reenterrados; sabia que não viria nenhum telefonema ou pedido de resgate; sabia que não se tratava de uma traquinagem que passara da conta; sabia que os meus amigos não voltariam jamais...

Isso aconteceu já fazem mais de 20 anos, e depois de meses de espera frustrada duas pequenas cruzes foram colocadas junto à fileira das crianças. A cidade inteira compareceu ao enterro simbólico, sem corpos, mas com muita emoção. A cidade inteira, menos eu – nada nem ninguém me faria voltar de novo àquele lugar. E nunca mais voltei, nem há cinco anos, quando meu avô foi sepultado. Preferi ficar na igreja, rezando por sua alma e por todas as crianças ingênuas e inocentes que acreditam que os mortos estão mortos, e que só os vivos é que podem nos fazer algum mal...

sábado, 14 de março de 2009

Os deliciosos biscoitos de Oma Guerta

Maristela S. Deves

Mariazinha quase bateu palmas quando Oma Guerta entrou na sala carregando a bandeja de biscoitos. Esse era o melhor momento das visitas semanais à casa da avó: a hora do lanche. Tudo o que a Oma fazia era delicioso, cucas, doces, bolos, biscoitos dos mais variados tipos. Gulosa, pegou logo três dos biscoitos, lambuzando-se toda de confeitos coloridos.

– Kind, Kind – riu a avó com seu forte sotaque alemão, acariciando a cabeça da netinha de nove anos enquanto ela atacava a bandeja outra vez.

Cabelos grisalhos presos num coque, olhos azuis brilhantes por trás das lentes dos óculos de aros redondos, Oma Guerta ajeitou o xale de crochê sobre os ombros antes de retornar à cozinha para cuidar de outra fornada de guloseimas.

Na sala, enquanto aguardava com alegria antecipada o bolo ou doce que viria a seguir, Mariazinha olhou ao redor para distrair-se enquanto esperava. A parede cheia de quadros sempre a encantara, e ficava imaginando como teria sido bom conhecer os bisavós e tataravós que a olhavam dos retratos. Ao lado deles, santos, muitos santos, ajudavam a fechar praticamente cada centímetro da parede. A única exceção era o canto onde estava o relógio, o velho relógio de pêndulo que tiquetaqueava as horas com uma solenidade que fazia jus à sua idade...

Pouco depois, terminava a segunda fatia de cuca recheada quando o pêndulo bateu pausadamente. Bléin. Bléin. Bléin. Bléin. Quatro horas. Logo, logo teria de ir para casa. Mas, antes, ia ver se a avó já tinha pronto o pote de bolo que sempre levava para comer no caminho...

Lambendo os farelos que tinham ficado nos dedos para não desperdiçar nada daquela delícia, levantou-se e, quase tão solene quanto o velho relógio, encaminhou-se para a cozinha.

Abriu a porta devagarzinho, sem fazer ruído. A avó, como ela esperava, estava parada em frente ao balcão, uma bacia nas mãos, misturando os ingredientes para mais uma fornada de biscoitos. O que ela não esperava ver era Kerb, o gato de longos pelos brancos da Oma, sentado sobre as duas patas traseiras e recitando calmamente em alemão os ingredientes que estavam no livro de receitas que ele segurava com as outras duas patinhas.

– Zwei glass Mel... Ein glass Zucker... Drei…

Olhos arregalados, Mariazinha deixou escapar uma exclamação. A avó virou-se, enquanto Kerb lhe lançava um olhar de quem estava chateado pela interrupção.

– Oma... Vovó, ele... ele fala! – conseguiu dizer.

– É claro que eu falo! – indignou-se o gato, largando o livro no chão para poder colocar as
patinhas na cintura. – E por que não iria falar?

Sorrindo, Oma Guerta meteu-se na conversa.

– Kinder, Kinder... Maria, Kerb, não quero discussões aqui...

Ainda pensando que tinha adormecido no sofá da sala e que estava sonhando, Mariazinha beliscou-se. Ai. Doeu... Mas então...

– Isso é de verdade, mesmo?

Antes que Kerb respondesse outra vez, a avó tomou a menina no colo.

– Mein Kind, Komm hier... Senta aqui no meu colo um pouquinho, a Oma vai te contar um segredo...

E, na meia hora seguinte – enquanto um impaciente Kerb andava de um lado para o outro, sentindo-se ignorado –, a avó Guerta revelou à neta o porquê de seus doces serem sempre tão deliciosos. Tudo começava com o livro de receitas mágico, trazido por suas antepassadas quando elas imigraram para o Brasil. Passado sempre de mãe para filha, ou de avó para neta, ele trazia instruções mágicas para o preparo de qualquer prato, fazendo-os mais saborosos do que os feitos pelos mais renomados mestre-cucas.

– Mas aqui... mas aqui não tem nada escrito – espantou-se a menina, folheando o caderninho que a avó pegara do chão e deixara sobre a mesa.

– É aí que entra o Kerb... – disse, chamando com um gesto o gato, que alegrou-se ao ser mais uma vez lembrado.

– Eu, como meu pai e meu avô e o pai e o avô do meu avô antes de mim, sou o único que consegue ver a escrita invisível que tem no livro mágico. Tenho a missão de ler essas receitas para minha ama, e, também, de dizer as palavras que completam a mágica – concluiu o felino, todo importante.

Os olhos de Mariazinha arregalaram-se ainda mais.

– Palavras mágicas?!

– Sim, palavras mágicas – acrescentou o gato, outra vez impaciente. Será que aquela menina não sabia nada de nada? – As palavras mágicas que vão fazer os biscoitos, as cucas e o que mais sua
avó fizer serem os mais deliciosos já vistos.

A pequena olhou do gato para a avó, como que querendo confirmar a informação. Oma Guerta meneou a cabeça.

– E quais são as palavras mágicas? – quis saber Mariazinha.

Condescendente, Kerb dirigiu-se até o forno de barro, ergueu-se outra vez nas patinhas traseiras e, com uma colher de madeira, bateu duas vezes na portinha:

– Wunderbaressen gegessen! – exclamou, também duas vezes. Depois, com um floreio, chamou Mariazinha para abrir o forno.

A menina abriu, cada vez mais maravilhada, e o aroma dos biscoitos recém-assados encheu a cozinha. Sem se conter, bateu palmas de contentamento. A avó chegou ao seu lado e, pegando-a outra vez no colo, disse:

- Mädchen, agora que você já sabe como a Oma faz tanta coisa boa, eu tenho uma pergunta muito importante para lhe fazer. Você quer aprender a fazer esses biscoitos mágicos, para ser a seguidora da tradição da família?

Agora, sim, Mariazinha tinha certeza de que estava sonhando. Ela, fazendo aqueles biscoitos? Como poderia...?

– E você vai ter o seu próprio gatinho – completou a avó.

Levantando-se e levando a menina pela mão, Oma Guerta voltou com ela para a sala. Ali, dirigiu-se para o velho relógio de pêndulo, sob o qual ficavam duas grandes portas de madeira que Mariazinha nunca tinha visto serem abertas. Pois a avó abriu-as e entrou, chamando Kerb e a neta para acompanhá-la. Era outra surpresa. Embora parecesse de fora um pequeno armário, lá dentro o espaço era gigantesco. Prateleiras e mais prateleiras de ingredientes, potes, cestas, até um jardinzinho tinha num canto. E uma casinha...

– Kätzie, venha cá... – chamou Kerb, parando à porta da casinha, e um maravilhoso e peludo gatinho apareceu.

– O que foi, papai? – perguntou a bolinha de pelos.

– Esta é sua ama, Mariazinha. A partir de agora, ela vai vir aqui todo dia para cozinhar conosco, e você vai ajudá-la – declarou o gato, solene.

Kätzie abriu um sorriso tímido para Mariazinha, que, encantada, pegou-o no colo. Precisava pensar: assumir a cozinha da avó era uma grande responsabilidade, mas aquele gatinho era tão lindo...

– Pense até amanhã, mein Kind – disse a avó, adivinhando-lhe as dúvidas. – Volte de manhã, para me dizer o que decidiu. Por enquanto, leve Kätzie com você.

No caminho para casa e durante toda a noite Mariazinha não conseguia pensar noutra coisa que na proposta da avó. Adorava seus biscoitos e suas cucas, e pensar que um dia poderia fazê-los... mas tinha medo de acordar no outro dia e ver que estivera certa, que tudo era mesmo um sonho. Adormeceu abraçada no gatinho, e sonhou com ele recitando as receitas ao seu lado...

Acordou com as lambidas de Kätzie.

– Bom dia, ama – disse o gatinho sorridente.

Todas as hesitações de lado, Mariazinha pulou o café da manhã. Com Kätzie nos braços, correu para a casa da avó. Chegando no jardim, estacou e olhou a casa. Parecia diferente hoje, embora ao mesmo tempo também fosse a mesma de sempre. Toda vez que entrava ali gostava de imaginar que estava entrando em um lugar especial, um mundo mágico. Agora, ia entrar na casa sabendo que isso era verdade, e que a partir de agora ela também faria parte daquela mágica. Bem que a mãe sempre dizia que os mais velhos têm muito a ensinar aos mais jovens...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Temporada de caça

(Maristela Scheuer Deves)

Tudo começou certo dia quando, durante o momento cívico, o professor hasteava a bandeira e uma vespa picou-lhe a cabeça. Indignado com a audácia do inseto, o mestre declarou guerra a esses pequenos “bandidos”.

– A partir de hoje, pago um cruzeiro a quem me trouxer 100 vespas, abelhas ou marimbondos mortos – declarou aos alunos, fazendo a alegria da garotada.

Querendo incluir na lista outros animais que considerava peçonhentos, o mestre decidiu que pelo mesmo valor compraria também 10 aranhas ou um rabo de cobra venenosa.

Foi um alvoroço na escola da pequena comunidade rural de Rincão Vermelho! Daquele dia em diante, os meninos das redondezas começaram a passar todo o tempo livre à cata dos “produtos”. Se alguém destruía um ninho de vespas, lá estavam os pequenos, contando os 100 insetos para montar mais um pacotinho e levar ao professor, que pagava por eles e enterrava no quintal da escola.

– Já ganhei 10 cruzeiros – vangloriava-se Luizinho, contando as moedas comercializadas com a venda dos bichinhos.

– E eu, 12 – completava Adão, que não podia ficar para trás. A concorrência era grande, e foi se tornando cada vez mais acirrada.

Com o tempo, as crianças foram ficando mais espertas – e malandrinhas, também. Percebendo que o mestre não contava as vespas ou abelhas ao recebê-las, começaram a juntar apenas 80 ou 90 em cada pacote, pois assim rendia mais.

As aranhas também eram muito procuradas, e os alunos desenvolveram até mesmo uma técnica especial para pega-las: colocavam uma bolinha de cera na ponta de um barbante e a desciam nos buracos do quintal, como isca. Deu até briga quando Adão descobriu que Carlinhos, outro colega da terceira série, havia “pescado” umas aranhas atrás de uma mata da propriedade do seu pai.

– Se foi no terreno do meu pai, as aranhas são minhas – defendia Adão, mostrando os punhos.

– Eu é que as peguei, então elas são minhas – defendia-se Carlinhos.

O professor teve de apartar a briga, e, como já tinha pagado pelos insetos e não iria pagar duas vezes, apenas aconselhou Carlinhos a não caçar mais nas terras da família do outro menino. Adão não gostou, mas conformou-se.

A temporada de caça seguiu aberta por várias semanas. Numa segunda-feira, Luizinho ia para a escola quando, no caminho, levou um susto: quase pisou numa cobra. Acabou vendo que não era venenosa – os meninos maiores é que a tinham matado e colocado no meio da estrada, para assustar as meninas. Aproveitando a “sorte” de ela já estar morta, Luizinho cortou o rabinho do réptil, vendendo-o ao mestre como se fosse animal peçonhento. Tendo visto o que o colega fizera, outros o delataram.

Foi a gota d’água, e o professor decidiu encerrar sua guerra aos insetos e animais peçonhentos. Até porque, provavelmente, boa parte do seu salário devia estar sendo comprometida com a aquisição dos “troféus”...